Eu não pertenço a este mundo

" O que hoje é um paradoxo para nós, será uma verdade demonstrada para a posteridade"
Denis Diderot
    

- Ju eu tava na reunião de pauta e você não vai acreditar o que sugeriram para a editoria de comportamento? Micos que as empregadas pagam. Você acredita? Dizer micos como fazer pipoca de mocroondas com panela, essas coisas. E soava bem pejorativo?

- Sério Paulinha? Como isso cara? Se eu fosse empregada doméstica metia o processo!

- Ainda bem que esse pessoal pensou nisso e desistiu, mas tinha gente que falou que era uma ótima matéria. Muito gostosa de se ler. Acha?

- Paulinha você ta no lugar errado hein?! (Risos e gargalhadas)

- Ju, eu não pertenço a este mundo! Com toda a certeza! Sou um alien nesse mundinho de Brasília e talvez do Brasil. Será que eu sou a única que insisto em negar os meus desejos para pensar em quem não possui nem esperança de desejos e fazer disso minha felicidade?

- Não Paulinha! Eu estou contigo. Também não pertenço a esse mundo.

                    Esse diálogo aconteceu dentro de um carro, em frente ao meu prédio, no meio deste ano. Depois desta conversa minha percepção de mundo e de sociedade nunca mais foi a mesma. Pude concluir que é extremamente raro alguém se importar com outra pessoa. Mas não é um parente, um amigo, namorado, mas sim alguém que você nunca viu na vida e que sabe que precisa que lutem pelo que ela nunca possuiu. Então vi que essa minha filosofia era antiga, Pascal já havia dito isso antes : “O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros mais felizes".

                Minha jornada teve início com um livro pouco conhecido de Foucault , “Ética da amizade”. Foi ele que norteou os meus sentidos, pensamentos e sentimentos para tal odisséia. Minha primeira batalha foi travado no meu próprio ambiente de trabalho,logo no primeiro questionamento : “Ora! A injustiça que somos submetido pode partir de alguém que foi injustiçado primeiro”. Nesse argumento fui chamada de “FALSA CULT”. Um neologismo, meus caros. Que no fundo queria dizer que eu fingia ser culta, e usando as próprias palavras deste ser humano, eu era uma “merda”. Como diria esta pessoa:“well.,well”, essa foi difícil. 

                  Como todo bom filósofo faz, fui refletir e tentar averiguar pelo método empírico se esta afirmação estava correta ou se não passava de uma inverdade. Mergulhei no mais profundo do meu ser e comecei a analisar as minhas atitudes e falhas, mas não conseguia encontrar nenhuma expressão numérica ou apenas sentimental no qual o resultado desse o valor exato “falsa Cult”. Foi quando o Doca veio me resgatar desses pensamentos paradoxais me informando do Fórum Social Mundial que irá acontecer em Belém no começo do ano de 2009. Doca e eu temos uma coisa essencial em comum: nos preocupamos com o legado que deixaremos. Nos envolvemos nessa conversa e comecei a perceber que eu não era exatamente uma “falsa Cult”, mesmo eu não sabendo da existência do Fórum Social Mundial. 

                  À procura de mais informação sobre evento, encontrei isto: “Um outro mundo é possível”. Este é o slogan do FMS. Quando li fiquei surpreendentemente feliz. Não tinha palavras para descrever a felicidade que estava em ler apenas aquele slogan. Meus caros, eu pensei que eu , Doca e Jú éramos os únicos Dom Quixotes de Brasília. Confesso que fui dominada por uma vontade extasiante de pegar a minha mochila e ir para Belém em janeiro. Mas lembrei-me das minha obrigações então resolvi deixar para o Doca fazer as honras e proporcionar essa felicidade para mim. Foi quando percebi, meus amigos, que talvez eu não tenha uma cultura suficiente para mobilizar-me inesgotavelmente para trabalhar a favor de um mundo melhor. Então talvez eu seja uma falsa Cult. Quem me conhece sabe que apregôo a todos os cantos a importância da mobilização e, analisando isso, vi que eu mesma era incapaz de mobilizar-me. Interessante....

                 Logo percebi que pela lógica do meu raciocínio todo somos FALSOS CULTS. Digo pela própria cultura que fomos outorgados e disciplinados a apregoar porém não avaliar o real efeito dela. Ou seja, não interagimos de forma alguma com os ideiais expostos e apresentados por nós. Então gritamos, berramos, esperneamos a favor disto ou daquilo, mas na verdade nunca passou disso. Uma fala, um grito, um texto... Isso não te deixa paradoxalmente confundido? Você sabe, tem informação o suficiente, mas não pratica..Não passa de um mito, uma fantasia, uma lenda. Com certeza em alguma área de sua vida, infelizmente você é um falso Cult. Sabe por quê? Simplesmente porque ninguém sabe de tudo, e o que hoje é paradoxal para você fará sentido em uma época distante, ou até mesmo já fez sentido para alguém no passado e no presente. Para mim é completamente incompreensível que existam JORNALISTAS que não saibam da existência da diferença social, racial, sexual. E que tal jornalista seja capaz de vendar os olhos para tais diferenças à troco de 5 moedas de pratas. Isso é completamente paradoxal para mim, mas para você pode fazer o maior sentido. 

 Você, eu e todos nós somos Falsos Cults!
 Bem vindo ao clube!

 Ana Paula Bessa
 Encontrando um jeito de não ser Falsa Cult
 PS: Quando descobri não hesitarei em contar-lhes

2 comentários:

Juli de Souza disse...

Nem de longe vc é uma falsa cult Paulinha! E esse mundo não é nosso mesmo mas não tem nada demais tentar melhorar ele um pouquinho... Outro dia perguntei ao meu pai porq ele era socialista. Seria por amor à humanidade? A resposta dele foi longa, versou sobre a construção da sociedade no mundo, desde a origem, sobre como ele acredita que esse "mundo do capital" de mera acumulação de poucos em detrimento de muitas outras vidas que ficam à margem, não é mesmo a praia dele, independente de quem ele ame mesmo, que no fim ele mesmo disse serem os filhos e futuras gerações (netos, etc), a velha história de tentar contribuir um pouco no que cada um pode fazer de melhor... Mas olha, vou te sugerir um livro que deveria ser a origem do raciocínio de qualquer pensamento Marxista/Socialista, chama-se "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado" de Engels.. veja: o cara escreveu isso em 1884 e vc vai encontrar muitos insights interessantes e atuais. Depois dele, todos os outros utilizaram-no como referência, incluindo o próprio Marx, porq ele começa justamente falando da divisão da sociedade a partir da divisão do trabalho. E o mais importante: ainda que muitos professores de sociologia e afins se declarem marxistas (dialeticamente falando), é raro encontrar na academia quem indique esse livro. Mas, vai por mim, cientificamente, esse livro vai te explicar muita coisa. E, outra coisa, continue escrevendo. Já te disse q vc me lembra eu mesma, só que vc vai dar certo ;) não disse? Se cuida! Ju

Gustavo Frasão disse...

Hum, esse texto é bem polêmico e um tanto quanto reflexivo. Em primeiro lugar, adoro a forma como você escreve. Tem um vocabulário sempre muito rico e sabe bem como organizar as idéias, do começo ao fim. Em segundo, a estrutura do próprio texto que está excelente. Você vê a ordem cronológica dos fatos e compreende tudo o que é dito, mesmo não conhecendo alguns termos. Isso é possível pelo contexto em que ele está, deduz-se que quer dizer determinada coisa, pois faz toda lógica do mundo com o que está sendo dito e afirmado na frase.

Em segundo lugar, você trabalha no Jornal da Comunidade. Está atuando na área de jornalismo, curso pela qual você decidiu fazer graduação, e que tem toda a lógica do mundo. Parece com você! Parece com você porque um jornalista que se preze tem opinião formada sobre tudo, tem idéias organizadas, é bem informado, é dedicado, esforçado e o principal: tem vocabulário rico, adquirido unica e exclusivamente por muita leitura, por muita dedicação, por muita informação.

Em terceiro lugar fecho minha idéia com isso. Diante de tais fatos ainda é possível afirmar que você é uma falsa cult? Se você for, todos nós somos também. E isso é interessante, porque nós de fato somos. Por mais que não tentemos ser, diante dos olhos dos leigos, somos falsos cults pelo simples fatos de eles não terem noção do que é cultura.

É... mas é isso. Para o alto e avante, Paulinha. Anda para frente, sempre. Se olhar para trás, corre o risco de bater a cabeça em algum lugar e você não nasceu para andar de marcha-ré! Encare esse "showzinho" ridículo aí como uma forma de elogio. É como se a pessoa quisesse ser o que você é e sabe que será impossível. Digo isso porque tudo o que você é e sabe hoje, é por puro mérito seu. Mérito de cultura!

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